Uma autocrítica necessária, para avançar na luta sindical

Que sindicato temos hoje no Brasil? Que sindicato nos propusemos a construir lá na saída da ditadura militar, na construção da CUT?”. Com esta provocação, Messias Melo, ex-Coordenador da Escola Nordeste da CUT e vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados, Informática e Tecnologia da Informação de Pernambuco – SINDPD-PE, abriu o painel sindical, no segundo dia do IX Congresso do SINPROJA.

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De acordo com o sindicalista, uma profunda autocrítica se faz necessária, pra que a luta sindical possa se reinventar e voltar a avançar. “É preciso olhar para a história e enxergar como se deram os processos, para que os princípios não sejam abandonados e, com eles, não seja perdido o rumo”, alertou. Para isso, Messias buscou resgatar palavras-chave que, de acordo com ele, explicitam o sindicato almejado nos primórdios da construção da CUT.

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Primeiro teria que ser um sindicato classista. Ou seja: que atuasse na luta de classes, organizando a classe trabalhadora para atingir seus interesses históricos, almejando o socialismo.” Sem o horizonte classista e socialista, o sindicalismo se resume à luta corporativa, a um paliativa diante dos ataques do capitalismo à classe trabalhadora.

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Segundo, colocávamos a necessidade de ser um sindicato de massa – que organizasse os trabalhadores, todos eles, para a luta. Não um sindicato de gabinete. Não um que resolvesse as questões somente em decisões de gabinetes”. As negociações só fazem a luta avançar se estiverem assentadas em uma forte mobilização dos trabalhadores.

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Também um sindicato democrático e de base: que construa seu processo de decisão com a participação mais ampla possível da categoria e com organização na base. Não há como fazer uma luta consequente sem estar organizado na base. É ali na base onde as contradições do trabalho aparecem”. Ainda que parte considerável do processo se dê longe da base, é imprescindível ter na organização de base o fundamento da atuação.

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E, por fim, um sindicato livre, que não se atrelasse ao Estado”, vaticinou. Nesta última questão, Messias alertou para não confundir duas coisas diferentes: a necessidade de incidir no Estado com fazer parte do aparelho de Estado. A organização dos trabalhadores deve vir da base, ter caráter classista e independente, para intervir no Estado sem ser engolido por ele.

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A partir destes pontos centrais de análise, o ex-coordenados da Escola Nordeste da CUT desenvolveu um processo de auto-crítica histórica profunda do sindicalismo. Para ele, os sindicatos precisam retornar aos princípios e se reinventar. “Se não tivermos esta capacidade, a tendência é desaparecermos”. Messias desenvolveu temas considerados fundamentais para esta reinvenção do sindicalismo brasileiro e pontuou os desafios colocados – sobretudo diante das transformações das relações de trabalho impostas pela Reforma Trabalhista e da Lei da Terceirização generalizada.

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Pra enfrentar estes desafios, de acordo com o sindicalista, é necessário inverter o movimento de fragmentação das categorias. Em vez de construir sindicatos cada vez mais abrangentes, ao longo dos anos o que aconteceu foi a fragmentação das categorias em sindicatos cada vez menores e mais corporativos. A ponto de, atualmente, haver muitas vezes um sindicato por cada plano de carreira, no serviço público. Nos ramos privados, o que se vê é um sindicalismo que não representa, por exemplo, os trabalhadores terceirizados dentro da mesma categoria e mesmo da mesma empresa.

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Messias avalia que, além de não conseguirmos conquistar a liberdade de organização sindical plena, aceitamos e muitas vezes alimentamos a fragmentação da classe em cada vez mais sindicatos, cada qual representando cada vez menos trabalhadores. De tal forma que existem hoje mais de 17 mil sindicatos, com uma média de apenas mil sindicalizados. “Se temos categorias com 30 mil trabalhadores, temos vários com 50, 100 sindicalizados. Não é nada boa esta fragmentação”, ressaltou o dirigente do SINDPD-PE.

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Outra questão abordada foi a relação entre os sindicatos e os governantes de plantão. O sindicalista afirmou que é fundamental fazer um processo de autocrítica sobre como os sindicatos conviveram com estes 13 anos de governos do campo Democrático Popular. “Isso é necessário para retomarmos um debate concreto sobre qual atuação sindical precisamos ter, daqui por diante. E no serviço público sobretudo, porque o patrão é o governante de plantão”, ressaltou. Messias afirmou que o problema foi visível principalmente nas cidades do interior, onde os sindicatos de servidores municipais ficaram a reboque das pautas dos prefeitos que eram do mesmo campo político do sindicato.

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Temos que construir um sindicalismo de forma autônoma sem perder a perspectiva política geral, nem se tornar atrelado ao governante de pl.antão”, alertou. Caso esta autonomia não seja prioridade prática, os sindicatos vão perder cada vez mais a capacidade de representar os trabalhadores.

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Por fim, o sindicalista aponta como desafio principal deste momento histórico a luta pela liberdade de Lula. “Ele está na linha de tiro pelo ele significa para a classe trabalhadora, com todos os erros e acertos”. Neste momento, segundo Messias, as eleições precisam ser uma das frentes de luta dos sindicatos. “Não que com a eleição as coisas se resolvam como num passe de mágica, mas é uma das trincheiras de luta necessárias”, ressalta.

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Para Messias, as eleições servem para acumular força sem a ilusão de acreditar que a classe dominante brasileira te compromisso com a democracia. “A maior parte da burguesia brasileira não tem compromisso com a democracia. E está claro que nossos instrumentos não foram nem estão sendo suficientes para fazer o confronto com o capital e resistir às perdas históricas impostas à classe trabalhadora”.

Assista a Live da palestra de Messias Melo no Link: https://goo.gl/27WKCn

Leia a Série Completa sobre as mesas do IX Congresso, no link: https://goo.gl/Hi1YAG

 

 

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