As raízes do Golpe e nossa chance de cortá-las

O ex-presidente da CUT Jairo Cabral recebeu a tarefa de destrinchar o jogo político e econômico global e suas implicações com a Política no Brasil, no Painel de Conjuntura do IX Congresso do SINPROJA. Para chegar aos desafios que estão colocados em 2018 e nas eleições de outubro, o sindicalista traçou um roteiro que partiu da disputa global entre as frações o capitalismo e seus tentáculos no Brasil, passando pelas crises econômicas e suas consequências na pauta política.

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O sindicalista abordou brevemente a estrutura econômica e política do capitalismo, as disputas geopolíticas e a hegemonia do capital financeiro internacional. Para explicar o grau da dominação política que a elite econômica exerce, ele trabalhou o conceito de ‘Estado Profundo’, ou ‘Estado Subterrâneo’, que o intelectual português João Bernardo chama de ‘Estado Ampliado’. “É a elite financeira, as grandes corporações internacionais de posse das tecnologias mais modernas, do financiamento global, da inteligência e força militares, no controle ‘de bastidores’ dos governos dos Estados Nacionais – tanto na periferia, quanto nos países centrais. As resoluções de caráter mais definitivo no estabelecimento de uma Nova Ordem Mundial passam por este núcleo de poder”, alertou o palestrante.

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Este Estado Profundo é característica do capitalismo em sua fase financeira, imperialista, que capturou os meios de controle que existem no mundo. “Sequestrou, inclusive, a política. O financiamento das campanhas eleitorais fica cada ano maior, beneficiando cada vez mais quem paga – que é este Estado Profundo”, resumiu Jairo Cabral.

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Apesar dos avanços tecnológicos que sentimos em nossas relações, a geopolítica gira em torno do Petróleo. “Os Estados Unidos tem suas cadeias produtivas quase todas vinculadas ao petróleo. Substituir por outra matriz energética significa ter que reestruturar todas as cadeias produtivas dos Estados Unidos”, dimensionou. Como o petróleo norte-americano dá conta de menos de 50% da necessidade interna, eles vão atrás de onde tenha petróleo. “Por isso toda a presença americana no oriente médio, assim como o interesse direto na Venezuela e um aumento do interesse no Brasil depois da descoberta do Pre-sal”, relacionou o ex-presidente da CUT.

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Internacionalmente, o capitalismo está buscando formas de sair da crise – e isso passa pelo processo de intensificação da mercantilização de tudo. “Hoje a água passa por um processo vertiginoso de privatização. As principais empresas do agronegócio já possuem mananciais gigantes e a tendência é a privatização geral da água”, lamentou. Para sair da crise, basicamente é preciso expandir a mercantilização, ampliar o mercado, quebrar as barreiras ao comércio e enxugar os custos da produção.

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A crise estourou no coração do sistema em 2008. No Brasil, por questões econômicas internacionais e pelas medidas desenvolvimentistas do Governo Lula, a tempestade internacional só gerou uma marolinha, entre 2009 e 2011. Mas globalmente a economia saiu da crise de 2008/2009 mais fraca. Uma nova crise se anunciava pra 1014/2015. No Brasil, a sombra da crise econômica intensificou a articulação de uma crise política que teve sua expressão inicial nas jornadas de Junho de 2013. “Entre os artífices da crise, estão parcelas da elite mais conservadora nos campos da política, do judiciário, da grande mídia e do empresariado, insatisfeitas com a sequência de governos de cunho mais progressista”, destrinchou Jairo Cabral.

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Neste movimento, a operação Lava Jato serviu como ferramenta de perseguição e eliminação do PT da disputa política brasileira. Dilma sofreu Impeachment sem crime e Lula foi preso sem provas. O Golpe de 2016 representou o ponto de virada, neste jogo. O objetivo era mudar as regras do jogo. Aliás, as regras do Trabalho – reduzir os direitos, desregulamentar a Consolidação das Leis Trabalhistas (liberar ‘uberização’, ‘pejotização’, ‘terceirização nas atividades-fim’ etc), aumentar a idade da aposentadoria (ou virtualmente acabar com ela). Reduzir o peso do valor da força-de-trabalho e dos impostos no bolso dos grandes empresários.

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Para garantir esta pauta, as forças do Estado Profundo se movimentam em todas as áreas. Além do jogo político pesado do golpe, as Reformas Trabalhistas e a Lei do Congelamento dos Investimentos em Educação e Saúde por 20 anos (Emenda 55). Na área que toca diretamente o IX Congresso do Sinproja, a nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a Reforma no Ensino Médio e o projeto Escola Sem Partido são a expressão disso na Educação. “Eu vivi outro momento parecido em 1968/69, com a reforma que o regime militar fez – retirando filosofia, sociologia e as disciplinas ‘mais críticas’ do currículo”, lembrou o palestrante.

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A comparação da nova BNCC com a reforma educacional da ditadura militar diz muito sobre a necessidade que o capital está demonstrando de intensificar a espoliação da classe trabalhadora. “É preciso ter uma educação para a classe trabalhadora que não permita que ela reflita sobre o processo ao qual está submetida”, ironizou.

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Como principal desafio do momento, o palestrante citou o período eleitoral, fazendo a ressalva de que somente as eleições não resolvem tudo. “Infelizmente existe na cultura do Brasil uma coisa que o auge da mobilização política se dá nos períodos eleitorais”, lamentou Jairo. Para ele, é necessário que os trabalhadores brasileiros assumam uma ação política diária e consequente, não só nas eleições. “Mas as eleições são parte, e uma parte importante. É uma chance de dar uma resposta massiva contra esta agenda e contra o Golpe”, conclamou Jairo.

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Assista a Live da Palestra de Jairo Cabral, no link: https://goo.gl/dPjqLw

Leia a Série completa de reportagens sobre o IX Congresso, no link: https://goo.gl/Hi1YAG

 

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