Memória e reflexões do VI Seminário GEPIFHRI
O VI Seminário do Grupo de Estudo e Pesquisa Interdisciplinares em Formação Humana, Representações e Identidades (GEPIFHRI), da UFPE, ocorreu nos dias 04 e 05 de dezembro de 2025 e trouxe como tema Infâncias, Tecnologias e Formação de Professores. O diretor de Políticas Sociais, Igualdade Racial e Gênero, Eduardo Almeida, e a diretora de Impressa e Divulgação, Keylla Miranda, representaram o SINPROJA, sendo este um dos apoiadores do evento.
As rodas de diálogo defenderam a urgência em discutir os direitos da infância na cultura digital, em um mundo cada vez mais conectado, e apresentaram os perigos para o desenvolvimento das crianças e dos adolescentes no tocante às mudanças nas estruturas cerebrais e às alterações radicais nas relações humanas culminando na dificuldade da construção do bom senso e da empatia. As pessoas convidadas a debater os diversos atravessamentos do tema pontuaram de maneira contundente que garantir o acesso equânime às tecnologias não é apenas oferecer dispositivos, mas também assegurar que crianças vivam experiências digitais de maneira segura, crítica e que não comprometa a criatividade. As brincadeiras, como espaço de imaginação e curiosidade, devem ser defendidas como formas de expressão e aprendizagem, desafiando educadoras e educadores a compreender como o universo tecnológico atravessa as infâncias contemporâneas. Assim, debates sobre proteção, acesso, letramento e inclusão digital tornam-se fundamentais para fortalecer práticas pedagógicas sensíveis, éticas e comprometidas com o pleno amadurecimento dessas crianças e adolescentes.
As mesas do primeiro dia de evento reforçaram que compreender as infâncias hoje exige ouvir as próprias crianças e reconhecer seus modos singulares de viver e estar no mundo digital. A apresentação do projeto Passarinhos, de autoria de quatro estudantes e uma professora dos Anos Iniciais da rede municipal do Recife, demostrou que crianças não apenas consomem tecnologia, como também produzem conhecimento e criam novas formas de brincar e aprender, negritando o que Freire sempre nos disse sobre colocar as crianças no centro do processo educativo. Ainda na manhã do primeiro dia, professores da UFPE e da UFRPE/FUNDAJ enfatizaram que as tecnologias, quando mediadas de forma crítica e sensível, ampliam repertórios culturais e possibilitam novas interações entre pares, corpos, territórios e comunidades. O debate destacou que o contato das infâncias com as tecnologias é múltiplo e complexo, exigindo dos profissionais da educação uma escuta ativa e práticas que dialoguem com as experiências reais das crianças. Além disso, é importante frisar os conceitos de emparedamento das infâncias e déficit de natureza, os quais denunciam o mergulho profundo no digital e a ausência de possibilidades múltiplas de experiência no dito offline. Essas reflexões revelam que proteger e valorizar as infâncias é também reconhecer seus direitos de experimentar, criar e estabelecer vínculos por meio das tecnologias, mas não apenas por essa via.
A mesa da tarde, “Dos cliques ao conflito: implicativos da interação nas redes na sociedade atual”, apresentou dados alarmantes sobre cyberbullying e como a família tem um papel crucial na mudança de comportamento dos agressores, vítimas e observadores. A temática profundou também o debate sobre como as desigualdades estruturais atravessam o acesso e a permanência das infâncias no mundo digital, visto que, enquanto alguns grupos têm acesso amplo a dispositivos, conexão e letramento digital, crianças e adolescentes das periferias enfrentam barreiras que reforçam ciclos de exclusão. Ademais, a reflexão denunciou como o fenômeno da adultez emergente atravessa crianças e adolescentes, levando a comportamentos violentos que começam nas redes, mas que podem desembocar em agressões físicas.
No segundo dia do evento, a discussão se deu sobre o papel da escola na construção das identidades infantis, onde o uso excessivo de telas desde a primeiríssima infância compromete de maneira profunda a formação global do indivíduo. Foi apresentado um dado assustador: 78% das crianças de 0 a 3 anos estão expostas diariamente às telas e entre as de 4 a 6 anos, esse número chega a 94%. Essa passividade do lúdico leva a uma crise da imaginação, criatividade e motricidade, pois as crianças que passam muito tempo em telas apresentam uma dificuldade em correr, e o tédio é o fiel companheiro de quem mantém os níveis de dopamina alto a cada clique. A cultura maker emerge como uma maneira de atrelar tecnologia com criatividade, onde as crianças criam artefatos e programam robôs através de desafios propostos em salas de aulas.
Já na mesa da tarde, o tema tratou sobre os diretos digitais na infância, onde se debateu a proteção das crianças em ambiente virtual e o aparato legal para que isso seja efetivado, tais como: a Resolução do Conselho Nacional dos direitos da criança e do adolescente (nº 24/2025), ECA digital (lei 15.211/2025), Internet segura para crianças e adolescentes, TIC kids online Brasil; Superior tribunal de justiça: jurisprudência sobre proteção de crianças no ambiente digital.
É importante pontuar que todas essas medidas de proteção no ambiente virtual é um desdobramento da crise que vivemos enquanto humanidade, a ética enfraquecida e os diversos tipos de violências que vivemos, seja pessoas morrendo de fome, seja feminicídio, seja guerras, tudo isso extrapola onde tiver interação social, pois alguém lucra com a miserabilidade de parte da sociedade, sendo necessário identificar e combater esses, essas e isso que nos expropriam todos os dias.
Garantir a inclusão digital vai muito além de ofertar tecnologia: é reconhecer que a experiência nas redes é marcada por disputas, vulnerabilidades e potências, e que políticas públicas precisam enfrentar essas desigualdades para que crianças periféricas não sejam vilipendiadas no mundo digital. Para tal, quem está na linha de execução da política precisa participar da elaboração da política, visto que o modelo top-down já se mostrou fadado ao fracasso.
O SINPROJA agradece a toda organização do evento, na pessoa da professora Viviane de Bona, o convite e, desde já, esperamos por mais momentos de debate e construção de conhecimento.
