19/09 – ANIVERSÁRIO DE PAULO FREIRE

PAULO REGLUS NEVES FREIRE

Neste dia 19 de setembro comemoramos a aniversário natalício de Paulo Freire. Nesta data, gostaríamos de prestar uma homenagem compartilhando com vocês este texto bibliográfico construído pela professora e pesquisadora da UFPE Eliete Santiago, publicado no site da Cátedra Paulo Freire.

Nasceu no Recife, em 19 de setembro de 1921. Filho de Joaquim Temístocles Freire e Edeltrudes Neves Freire, despediu-se do planeta terra no dia 02 de maio de 1997, em São Paulo, deixando um legado espiritual e acadêmico como herança pública e social, cuja responsabilidade de cuidar, distribuindo-o criticamente e ampliando seus raios de uso e inovação, é individual e institucional.

A experiência profissional de Freire foi construída em diferentes espaços e níveis educacionais no âmbito escolar e do movimento social a partir do Colégio Osvaldo Cruz, estendendo-se pelo SESI, Instituto Capibaribe do Recife, pela Escola de Serviço Social, Escola de Belas Artes, Serviço de Extensão Cultural do Recife da Universidade do Recife, atualmente, Universidade Federal de Pernambuco, espalhando-se pelo mundo nas mais diversas formas de colaboração. Foi ele um dos maiores educadores do Brasil e uma das maiores autoridades mundiais em educação. Criador de um sistema de alfabetização revolucionário para adultos, influenciou professores(as) de todo o mundo, obtendo reconhecimento universal do seu trabalho.

Foi Secretário de Educação da Cidade de São Paulo entre 1989 a 1991 quando oportunizou e vivenciou uma releitura da Pedagogia do Oprimido no exercício da atividade de gestão. Como professor recebeu diversos títulos de Doutor Honoris Causa de Universidades do mundo inteiro e escreveu dezenas de livros, entre eles destacamos: Pedagogia do Oprimido (difundido em diversos idiomas no mundo inteiro) Educação como Prática da Liberdade, Ação Cultural para a Liberdade, Cartas à Guiné Bissau como sendo aqueles cujas idéias estão na base do pensar freireano. Há também aqueles mais recentes, pós-exílio, como Educação na Cidade, A Sombra desta Mangueira, Cartas à Cristina,etc. que mostram um outro tempo de Paulo Freire renovando e reafirmando os princípios que estão na base da pedagogia revolucionária. Os livros diálogos, construídos em formato de conversas e entrevistas e os capítulos de livros, juntam-se à vasta produção sobre ele, representando o patrimônio espiritual, cultural, acadêmico e social que Paulo Freire deixou como herança.

Os escritos de Freire são testemunhos do profundo respeito por aqueles e aquelas com quem conviveu, a quem ensinou e de quem aprendeu. Não somente porque os/as escutou, mas porque considerou os seus saberes e linguagens. Respeito e solidariedade por homens e mulheres letrados(as) alfabetizados (as) ou letrados (os)analfabetos(as) ou alfabetizandos(as) são referências nos seus textos e contextos numa demonstração do valor atribuído ao saber popular.

Observando, ouvindo, indagando, fazendo, refletindo, numa atitude de vigília, Paulo Freire – cidadão do mundo e personalidade do século XX – foi com a vida e a lida, com a existência cantada e falada pelos homens e mulheres, construindo um pensamento e uma prática político-educativa comprometidos com a humanização dos sujeitos e com a transformação da sociedade. Um pensamento e uma prática cuja finalidade maior é o processo de conhecimento–conscientização da realidade do e pelo sujeito.

Essa pedagogia, que toma homens e mulheres como sujeitos do conhecimento e da história, que se preocupa com a leitura da palavra mas antecedida pela leitura do mundo, mal começava a ser construída no Brasil, no final dos anos cinqüenta e início dos anos sessenta. Essa epistemologia política mal começava a ser esboçada e já incomodava o poder que nos anos 60-70 se apossava da direção política do País. Esse pensamento e prática, essa pedagogia emergente e diferenciada foi interrompida no Brasil pois ameaçava o poder político e econômico constituído que arrancavam do homem e da mulher brasileira a sua condição de protagonistas das suas próprias vidas – vivências – e História. A pedagogia que reconhecia a natureza de ser mais do homem e da mulher e por reconhecer respondia com processos de produção do conhecimento e não com processos de transferência daquele e daquela que sabe mais para o aquele e aquela que sabe menos ou que não sabe, foi interrompida, mas não anulada.

A exacerbação do poder, o golpe de estado, interrompeu o olhar e a experiência no chão brasileiro, mas não o sonho coletivo também sonhado por Freire que, apesar das adversidades, continuou a sonhar o sonho, deu continuidade ao trabalho, permaneceu na luta e na construção da pedagogia do saber fora do Brasil, mas sem se distanciar dele.

A necessidade de continuar vivo e em família, levou Paulo Freire, mesmo a contragosto, a vários contextos de empréstimos, onde nem se desligava do Brasil e nem a ele ficava colado, mas, perto e distanciado ao mesmo tempo, deu continuidade às reflexões e práticas pelos países solidários. A passagem rápida pela Bolívia permitiu rumar para o Chile, os Estados Unidos da América do Norte, Suíça e a África para somente depois de 15 anos, em outro contexto de abertura política, retornar ao Brasil no início dos anos 80.

São Paulo , através da PUC e UNICAMP, recebeu Paulo Freire no seu retorno ao Brasil. Esse mesmo Estado/cidade oportunizou-o (re)ensaiar a Pedagogia do Oprimido ou a pedagogia do saber, desta vez sob a sua própria direção na Secretaria de Educação do Município – gestão colegiada – de onde deu continuidade a contribuição e ao compromisso com a formação humana e intelectual de crianças, jovens e adultos desse país.

A ética da solidariedade, a responsabilidade política e o compromisso social com a humanização dos sujeitos, realizaram-se em Paulo Freire como práxis política e pedagógica mediada pela educação. Ética que tece a sua trajetória e que se objetiva como opção por uma educação libertadora.

É essa responsabilidade política e pedagógica como trabalho em Educação, que Paulo Freire sistematizou, acumulou e construiu como uma Pedagogia – A Pedagogia do Oprimido, A Pedagogia da Esperança, A Pedagogia da Autonomia, A Pedagogia da Indignação – que a UFPE precisa dar continuidade através da criação de um espaço específico como a Cátedra. Uma Cátedra Paulo Freire na UFPE contribui para efetivar esse compromisso da Universidade com a divulgação do pensamento e da obra de Paulo Freire na construção de uma ética humanizadora como trato ao ensino, a pesquisa e a extensão.

Professora Eliete Santiago
UFPE/CE/DAEPE

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